Descarbonização na pecuária leiteira: como reduzir a emissão sem afetar a produtividade?
A descarbonização na pecuária leiteira vem ganhando força como uma resposta concreta às demandas ambientais, de mercado e de eficiência produtiva. Em um cenário no qual consumidores, indústrias e financiadores exigem sistemas mais sustentáveis, reduzir a emissão de gases de efeito estufa deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a integrar a estratégia econômica das propriedades leiteiras.
O ponto central dessa discussão é claro: é possível reduzir emissões sem comprometer a produtividade. Na prática, muitos protocolos de baixo carbono estão diretamente associados ao aumento da eficiência, da sanidade do rebanho e do desempenho zootécnico.
O que é descarbonização na pecuária leiteira?
A descarbonização consiste na redução da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), como o metano (CH?), o óxido nitroso (N?O) e o dióxido de carbono (CO?), por meio da adoção de práticas de manejo e técnicas produtivas que diminuem o impacto ambiental da atividade.
Na pecuária leiteira, essa estratégia envolve ajustes no manejo animal, na nutrição, no uso do solo e na gestão dos dejetos. Diferente do que muitos imaginam, descarbonizar não significa produzir menos. Pelo contrário: sistemas mais eficientes emitem menos gases por litro de leite produzido.
Por que a descarbonização não reduz a produtividade?
Grande parte das emissões está associada a ineficiências do sistema produtivo. Animais pouco produtivos, falhas reprodutivas, dietas mal balanceadas e solos degradados elevam a emissão de GEE por unidade de produto.
Quando essas falhas são corrigidas, o resultado é duplo:
• A produção por animal aumenta.
• A emissão relativa de gases por litro de leite diminui.
Assim, descarbonizar significa, na prática, produzir melhor.
Principais protocolos técnicos para descarbonização:
1.Mitigação da emissão de metano entérico
O metano entérico é o principal gás associado à produção de leite. Ele é liberado durante a fermentação ruminal dos bovinos e está diretamente relacionado ao tipo de dieta e à eficiência do animal.
Reduzir essa emissão significa aumentar a eficiência produtiva do rebanho, gerando menos GEE por litro de leite. Práticas recomendadas:
• Melhoria dos índices zootécnicos, com foco em reprodução eficiente, maior produtividade e aumento da longevidade das vacas.
• Ajuste nutricional com dietas balanceadas, formuladas para alta digestibilidade e melhor aproveitamento dos nutrientes.
• Uso de aditivos nutricionais que reduzem a formação de metano no rúmen.
• Manejo eficiente de pastagens, garantindo oferta constante de forragem de qualidade.
• Cuidados com sanidade e bem-estar animal, reduzindo perdas produtivas e melhorando o desempenho individual.
Essas ações aumentam a eficiência de conversão alimentar e reduzem a emissão de metano por unidade de leite produzida.
2. Redução da emissão de óxido nitroso e amônia no solo
O manejo do solo e dos dejetos animais é outro ponto crítico nas emissões de GEE. O óxido nitroso e a amônia são liberados principalmente em áreas de pastagens mal manejadas e no uso inadequado de fertilizantes nitrogenados. Técnicas eficazes incluem:
• Uso de leguminosas consorciadas com gramíneas, promovendo a fixação biológica de nitrogênio e reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos.
• Distribuição mais uniforme dos dejetos por meio de sistemas de pastejo rotativo.
• Uso de fertilizantes de eficiência aumentada e técnicas que reduzem perdas por volatilização, como a incorporação ao solo.
Essas práticas reduzem significativamente a emissão de óxido nitroso, um gás com potencial de aquecimento global dezenas de vezes maior que o dióxido de carbono, além de melhorar o aproveitamento do nitrogênio no sistema produtivo.
Além de reduzir emissões, a pecuária leiteira pode atuar ativamente no sequestro de carbono atmosférico. Sistemas bem manejados têm capacidade de armazenar carbono no solo e na biomassa vegetal.
Práticas de destaque:
• Plantio direto e conservação do solo, aumentando os teores de matéria orgânica.
• Recuperação de pastagens degradadas, elevando a produtividade e o estoque de carbono.
• Sistemas integrados com árvores, como o silvipastoril, que ampliam a captura de carbono.
• Uso de adubação verde e bioinsumos, estimulando a atividade biológica do solo e a retenção de carbono em profundidade.
Essas técnicas transformam parte do dióxido de carbono atmosférico em matéria orgânica estável, tanto no solo quanto na vegetação.
Conclusão
A descarbonização na pecuária leiteira é mais do que uma tendência ambiental. Trata-se de uma oportunidade estratégica para tornar a produção mais eficiente, competitiva e alinhada às exigências de mercado.
A adoção de protocolos técnicos voltados à mitigação do metano entérico, ao uso mais eficiente do nitrogênio no solo e ao acúmulo de carbono permite reduzir emissões sem comprometer os resultados produtivos. Em muitos casos, esses ajustes elevam a produtividade e reduzem custos operacionais.
Quando implementadas de forma integrada e com orientação técnica, essas práticas contribuem para sistemas produtivos de baixo carbono, com ganhos ambientais e econômicos, fortalecendo o papel da pecuária leiteira como uma atividade sustentável e resiliente frente aos desafios climáticos.
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